quarta-feira, 1 de outubro de 2014

#OPINIÃO - André Lima: #PlanoAlto estreia com Alto Padrão de Qualidade


Por André Lima


E começou da melhor maneira com “Para não dizer que não falei das flores” de Geraldo Vandré. Música que retrata de fato, o que foi a ditadura. Essa canção foi proibida na época pelos militares, depois de um sucesso estrondoso, que chamava o povo a ir às ruas. Na voz de Zé Ramalho e da banda Charlie Brown Jr. a canção abriu a minissérie “Plano Alto” já mostrando um fino trato com fotografia e trilha sonora.

A direção geral de Ivan Zettel junto com Leonardo Miranda e Nádia Bambirra, em perfeita sintonia escolheu começar em uma cena adiantada e depois voltar alguns meses. Ponto para a obra, que precisa de dinamismo para se firmar. O assunto é melindroso, mas precisa ser posto à mesa. Frases “de efeito” ditas pelos três principais personagens, levavam o telespectador atento a refletir.

“Política é igual nuvem no céu. Você olha uma vez e está de um jeito. Você olha mais uma vez e está de outra completamente diferente.” Disse Guido Flores (o espetacular Gracindo Júnior).

Em contrapartida, o seu filho, João Titino (Milhem Cortaz), em uma conversa disparou:
“Na política, qualquer gesto é arriscado. Até um Pum”

E o neto de Guido Flores, o Rico (Bernardo Falcone), que de início se colocava bem longe da política, em uma cena de sexo com a namorada, antes de sair para uma manifestação, disse:
“O amor é a maior forma de protesto”.

Para os desavisados, a minissérie não é uma crítica direta, nem a político A ou político B, muito menos a partido C ou D. Marcílio Moraes é inteligente em demasia para não se permitir entrar em um assunto tão melindroso como este, utilizando apenas de recursos superficiais.

A ideia do autor, já declarada por ele em várias entrevistas, é levar o telespectador a compreender o real significado de “política” e mostrar que também existe a “politicalha” na luta pelo poder. Reflexão sobre política e eleições é o mote principal da trama do genial autor.

Na trama, o personagem principal, Guido Flores, que brigou na ditadura militar pelo seu fim é, nos dias atuais, Governador do Rio de Janeiro e com pretensões de alcançar o cargo maior na política brasileira, ser Presidente da República. Não é um santo homem e nem tampouco um mau caráter. Mas sim, um político, que vivencia e se utiliza dos recursos desta premissa para se firmar no poder.

Em uma brilhante cena de protestos, onde ele tenta discursar com o sindicato dos servidores públicos, que o vaia, ele é categórico: “Eu enfrentei a ditadura, para garantir a vocês o direito de protestarem”.

Marcílio Moraes conseguiu, de forma brilhante, junto com a direção, mostrar o contraste (povo, juventude, trabalhadores, políticos adversários) com cenas ágeis. Trilha sonora mais que perfeita, e um elenco estelar, o fino do fino em se tratando do ofício “ATOR”.

O encontro de gerações de políticos na trama se fundem com o encontro de gerações de atores. Os veteranos (Gracindo Júnior, Jussara Freire, Ester Góes, André Mattos, Paulo Gorgulho e outros grandes nomes se juntam, em uma harmonia perfeita com a nova “safra” de atores. Como é o caso de Bernardo Falcone, Mariah Rocha, Carla Diaz e Robertha Portella).

Para ilustrar e amarrar bem a trama, foi ao ar cenas contrastantes, como os políticos acompanhando as manifestações em seus confortáveis e luxuosos lares, tomando bebidas requintadas, o povo nas ruas em manifesto, alguns em protesto genuíno, outros depredando por julgar ser assim a única maneira de conseguir algo. E o diálogo entre Dora e Traçado (Jussara Freire e Giuseppe Oristânio) enquanto assistiam às manifestações pela TV, um que conhece de perto o bastidor do jogo político e a outra que detesta a política. Deixavam claro ao telespectador que, diferentes pontos de vista e de pessoas diferentes e de interesses diferentes, foram jogados no ar para que pudesse fazer a reflexão.

Uma obra de arte entrou no ar. Com o crivo do texto do autor mais inteligente da atualidade e sob a batuta da direção de Ivan Zettel que tem uma direção acertada e panorâmica, levando o telespectador a enxergar o todo e poder mergulhar mais profundo no mundo da política e também da sociedade.

O texto, certamente mexerá com os brios de muita gente. Mas a verdade é uma só. A minissérie é brilhante. A julgar pelo primeiro capítulo, que foi um passeio panorâmico pelo roteiro. É para se esperar cenas magníficas nos próximos 11 capítulos.

E para não dizer que eu não falei das flores, eu preciso ressaltar aqui, com todas as pompas necessárias, que a Rede Record, está de parabéns, por dar a liberdade de uma obra ousada e inédita como Plano Alto de Marcílio Moraes, entrar no ar em um período de eleições. É por essas e outras que eu torço, particularmente, para o crescimento do canal em “teledramaturgia”. O telespectador, tem hoje, a opção de escolher entre um canal e outro.

Mesmo a mídia especializada em TV, boicotando o canal, dando o mínimo de espaço possível às notas sobre a sua programação. E mesmo assim, a TV Record, com o seu Recnov continua de pé. Contra tudo e contra todos.

Os blogueiros e críticos de TV se vêm obrigados a elogiar uma obra como esta. Mas, para não perderem o costume do “boicote”, sempre procuram um “porém, contudo, todavia” para continuar desmerecendo o trabalho magnífico do canal.

Aqui, cabe a mim o direito de dizer que, depois de José do Egito, Plano Alto é a obra mais completa que a Record já colocou no ar. Desde o texto, elenco e a parte técnica. Tudo muito bem amarrado.

Certamente, essa será mais uma obra premiada fora do país. Uma vez que aqui, ainda reinam as premiações articuladas. E somente um canal abocanha todo o bolo desse gênero. Lamentavelmente.

Aqui fica o meu aplauso de PÉ, para o autor, direção e grandioso e estelar elenco.

Vale acompanhar os seus 12 capítulos. É o que existe de melhor no ar, em se tratando de teledramaturgia. Texto inteligente, com diálogos brilhantes com objetivos definidos. Nada do que é dito ali, é jogado para “encher linguiça”.

Viva a teledramaturgia brasileira!

Plano Alto é escrita por Marcílio Moraes
com colaboração de Aline Bargati e Joaquim Assis
Direção: Leonardo Miranda e Nádia Bambirra

Direção Geral: Ivan Zettel