segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Entrevista Exclusiva: Vitor Hugo - O Picasso de "Pecado Mortal"


Um só ator... e infinitas histórias a serem contadas. Seu talento é indiscutível. Seu profissionalismo... motivador. No ofício, a dedicação, o empenho e a generosidade de sair de cena (o Vitor) e emprestar o corpo para um novo personagem. Cada personagem, uma história contada. Cada história contada, uma nova emoção vivida.

Senhoras e senhores, o Portal Recordista apresenta-lhes o grande e espetacular ator, Vitor Hugo.
Seu último trabalho na Record, o Picasso (Pecado Mortal). E mais uma vez, um brilhante trabalho.

Acompanhe, com exclusividade do Portal Recordista, a entrevista do ano.


Vitor Hugo e Gustavo Machado
" Pecado Mortal "

1) Quando você decidiu ser ator?

"Quando o teatro destilou meus medos 
e os fez possibilidades..."

Minha infância foi brincada entre uma enorme e silenciosa timidez por um lado, e todos aqueles sonhos grandiloqüentes de menino: desejos de castelos e reinados; de andanças heróicas e quixotescas... Quero dizer que fui um menino quieto e de poucos amigos na escola, que não praticava esportes, que era pouco social. Mas em meu silêncio eu desenhava o mundo com as cores de minhas esperanças. 

Aos dez anos de idade, ingressei em um curso de teatro, e ali descobri que a cada novo personagem eu poderia viver um novo futuro. Não precisava temer o adulto que viria a ser, e tampouco a cara escolha de ter uma e apenas uma profissão. Poderia ser tudo aquilo, ou melhor, “todos aqueles” que eu me propusesse ser. Achei que de todos os meus tesouros de menino este eu deveria legar ao meu adulto. Pois seria um caminho belo, como Poesia. Quando aos 10 anos percebi isto, me rendi... 









2)      O início da carreira foi muito difícil?

" Nunca me dediquei a um personagem pensando 
que ele poderia me abrir a porta 
para outro"

Comecei criança quando tudo não é mais que um jogo. E para as crianças que ainda não se desencantaram da vivência brincante, o que possibilita os sorrisos em uma ciranda, é a música, a dança, o dar-se às mãos ali, no efêmero instante do agora. Quando menino, só pensava em tornar a brincar quando a brincadeira já havia terminado. 

E isto se deu com a carreira. Nunca me dediquei a um personagem pensando que ele poderia me abrir a porta para outro. Afinal, já havia uma porta aberta, eu já estava no jogo! Só precisava jogar. Só havia de me dedicar para contar aquela história. Sempre uma – de – cada – vez...

E pensando nisto, esta pergunta se me apresenta ainda mais intrigante pois, já nem se trata mais de recordar se de algum modo o “início da carreira foi difícil”; e sim, se não estarei sempre no “início”...

3)      Teve o apoio da família?

"Meus pais não apenas me apoiaram. Eles, sobretudo, fundamentaram meus passos, solidificaram meu caminho, acalentaram meu sonho. Sempre foram os grandes atores e diretores de meu destino."

4)      Seu início foi no teatro. Você foi premiado no teatro já aos 15 anos de idade por sua atuação em Capitães da Areia. O palco é a base que o ator tem para a construção de uma carreira sólida?

"Creio que antes de solidificar uma carreira, 
o palco solidifica o “ethos”, o caráter, 
sobre pilares como alteridade, 
compreensão generosidade."

Arrisco dizer que é base para construção da solidez de uma certeza: a de que o teatro, para aqueles que não têm coragem, é uma das mais “inadvertidas” aventuras que se possa experimentar porquanto nos conduza ao mais temível desconhecido: o desconhecido de nós mesmos. 

Creio que antes de solidificar uma carreira, o palco solidifica o “ethos”, o caráter, sobre pilares como alteridade, compreensão e generosidade. Em um processo teatral nós atores abdicamos de nossas certezas, pré-conceitos e visões de mundo porque precisamos ver o mundo com os olhos do outro que agora estará em nós. Precisamos entendê-lo, compreendê-lo para dar voz às suas dores e angústias. E se não crermos em suas motivações, como sentir suas emoções? 

O Ato de ter de ser outro nos faz maior, porque nos faz mais que apenas nós mesmos. E a compreensão do outro passa pelo coração. É preciso que a dor dele, também seja a minha. No teatro temos um tempo maior de experimentação e de descoberta que quase (se não) sempre, nos possibilita realmente sentir a emoção do outro. E assim descobrimos em nós mesmos um sorriso ou choro que não nos sabíamos capaz de sorrir ou chorar. 

Se cabe ao ator a bela sina de despertar o público do sono do distanciamento, fazendo com que ele descubra suas emoções; e se o teatro faz o ator ter de cultivar e colher uma lavoura de sentimentos em si mesmo para que seja capaz disto, creio que os invernos não serão tão rigorosos para aqueles que semeiam na terra fértil dos palcos.














5)         Na sua estreia na Record em 2008 você se destacou interpretando o personagem Marreta na novela Chamas da Vida. Para você o que representou esse personagem? 

O Marreta foi um personagem de transição para mim. Como que uma última irresponsabilidade da juventude. Era ele um cara mais maduro mas que mantinha amizade com uma turma mais nova de rebeldes sem causa. Ou seja: um personagem que exigia ainda desta liberdade que experimentamos aos vinte e pouco anos, solteiro e sem filhos. 

Eu já não o era mais (solteiro e sem filhos), por isso senti que ali havia algo como uma despedida. Sabia que eu não mais viveria personagens com aquele perfil dali para frente, bem como eu mesmo não mais vivia a queda-livre de ser apenas um, e não um pai de família. Me dediquei ao personagem como faço em todos os meus trabalhos. 

Com esmero, respeito pela história a ser contada, e suor, muito suor. Foi um belo adeus: recebi a indicação de Melhor Ator Coadjuvante ao Prêmio Contigo da TV Brasileira e personagem me rendeu a renovação de contrato com a Record por mais três anos.


6)         Depois disto participou de 3 das 4 minisséries bíblicas interpretando personagens marcantes como o aleijado Mefibosete em Rei Davi e Judá em José do Egito. Como foi viver, mesmo que por algumas horas, num passado tão distante?

"Rastejar solitariamente por três dias consecutivos como 
se eu mesmo fosse aleijado, me fez verdadeiramente 
próximo da dor e dignidade de Mefibosete."

No que se refere às minisséries, creio que intensidade dramática dos personagens bíblicos nos permite algo além. Não se trata apenas de voltar ao passado, mas de voltar os olhos para si mesmo, ente fadado aos erros, dores e amores de ser humano... As grandes histórias (bíblicas, míticas, gregas ou de grandes autores) traduzem os sentimentos humanos em suas mais prazerosas ou condoídas possibilidades. 

Buscar entender o que fez um homem (Judá) vender seu próprio irmão, imaginar ainda a dor de perder 2 filhos e a mulher, me fez flertar com sentimentos alheios à minha vida pessoal, mas que, de algum modo, por cumplicidade, compaixão ou pelo gesto corajoso da compreensão se fizeram meus. 

Rastejar solitariamente por três dias consecutivos como se eu mesmo fosse aleijado, me fez verdadeiramente próximo da dor e dignidade de Mefibosete. Não apenas voltei ao passado por algumas horas; antes, reinventei meu presente na busca de novos sentimentos e me projetei um futuro mais altruísta.

Caio Junqueira, Guilherme Winter, Vitor Hugo e Felipe Cardoso
"José do Egito "
A recepção do público e da crítica com relação ao trabalho exposto, só veio confirmar esta minha fé: a de que buscar verdadeiramente as dores e amores dos personagens e expressá-las com honra faz com que o público mergulhe em si mesmo e indague-se quanto aos seus próprios sentimentos. 

A primeira cena de Mefibosete em Rei Davi, foi eleita pelos internautas a mais emocionante de toda a série, não sem ter se tornado o 6º assunto mais comentado no Brasil no dia da exibição.

O discurso no qual Judá se empenha como escravo para salvaguardar a vida do caçula Benjamin, e que faz com que José se revele sua identidade até então oculta aos demais irmãos, também foi eleita a mais marcante da série José do Egito. 


7)         Precisamos falar sobre o Picasso de Pecado Mortal. Antes de mais nada, que belíssimo trabalho hein? (risos). Podemos afirmar que Picasso foi até agora o seu papel mais completo na TV? 

Creio que foi o mais completo porque certamente foi o mais contraditório em suas emoções. 



8)         Você encontrou alguma dificuldade para compor o Picasso?  Como foi o processo?

"A ausência de um amor que ele experimentou por 4 anos 
ofertado por sua mãe é o vazio que o 
incandesce e o enlouquece"

Em minha composição, fundamentei muito de sua violência pelo modo violento como a vida lhe privou do amor. Do amor de um pai que não o acolheu e de uma mãe que o amou mas morreu drogada, mendiga e abandonada, com ele, menino, sobre seu colo lhe fechando os olhos... Sua infância no orfanato, fadada aos abusos e aos não afetos o endureceram. 

A ausência de um amor que ele experimentou por 4 anos ofertado por sua mãe é o vazio que o incandesce e o enlouquece, penso eu. É o que ele procura... Não especificamente o amor materno; mas a acolhida, o afeto, o acalanto. Intuo que ele clama por afeto fazendo de sorriso sua maior arma. 

É, contraditoriamente (por ser ele tão violento), por meio de sua simpatia que ele faz com que os outros se aproximem dele e, de algum modo, lhe concedam afeto. Mas ele não sabia disto. Quero dizer... ao menos este foi o modo subjetivo como o construí. Depois o autor revelou outros dados... 


Miguel Nader e Vitor Hugo
" Pecado Mortal " 

9)         Sim! O autor Carlos Lombardi brincou muito com a orientação sexual do Picasso. Deixou a dúvida no ar até o último capítulo. Para o ator que está fazendo uma obra aberta onde tudo pode mudar, Isso dificulta ou é mais instigante para fazer?´

É como a vida... nunca sabemos no que dará. Aí é que está o desafio e a força! Um personagem de obra aberta, vejo assim, é como uma criança: tem sua vida própria, recebe orientações do ator e do autor como pai e mãe que educam os seus, mas que, com o caminho, adquire sua liberdade transgressora. 

E é preciso que se aventurem a partir de si mesmos. Quando transcendem o autor e o ator algo misterioso acontece. Algumas vezes tive a sorte de presenciar isto... Com Picasso foi assim. No final do Picasso há este mistério nos olhos dele... O autor determinou aquele final, eu como dedicado operário me empenhei em contá-lo, mas o personagem, livre de nós dois (autor e ator), concordou  realmente com aquilo que dizia? 


Fernando Pavão e Vitor Hugo
" Pecado Mortal "
Foto: Gero Pestalozzi 

10)       Como foi a reação das pessoas nas ruas em relação ao personagem?

Algo paradoxal como o personagem: tinham empatia por ele, mas não me vinham falar sem algum zelo. É quase como se julgassem que eu (Vitor) sou como aquele louco. Sou reservado por minha timidez e não por ser mau caráter. Foi curioso...


Simone Spoladore, Fernando Pavão e Vitor Hugo
" Pecado Mortal "

11)       A novela toma bastante o tempo do ator. O que tem feito nas horas livres?

Leio filosofia, vou ao sol, ao mar e, sobretudo, acalento os meus pequenos e mulher.

12)       Algum personagem ou novela que você viu e teria vontade de ter feito? 

Iago, de Shakespeare;  Édipo Rei de Sófocles;  os bíblicos, os gregos... Mas sobre todos, desejo fazer aqueles que os diretores não me julgam capaz de fazer. Porque certamente serão os mais distantes de mim e mais desafiadores. E quanto mais fundo eu tenha de garimpar em mim mesmo, mais preciosa será pedra que desenterrarei. 

13)       Qual é a dica que você dá para quem procura um lugar ao sol na carreira artística?

Creio que sempre andarei à procura do meu, de modo que não sei bem o que dizer... Talvez possa falar que, por mais outonal que meu sol tenha sido por boa parte do caminho, nunca deixou de se mostrar belo aos meus olhos porque mesmo as folhas secas caindo têm sua poesia. 

Acho que é isto... a poesia. Somos (nós atores) apenas contadores de histórias... Temos de ser bons contadores. Creio que para falar do mar temos que exalar maresia; do ar, temos de ventar. Julgo que o ator tem de ser solo fértil para os sentimentos e senhor de engenho para moer os mesmos e extrair deles as palavras. 

Há alguns anjos caídos que nos fazem compreender isto: Homero, os Gregos, Virgílio, Dante, Cervantes, Shakespeare, Victor Hugo (o autor, pelo amor de deus!), Proust, Zola, e com nosso sotaque, Machado, Guimarães Rosa, Jorge Amado...
Objetivamente?  Leiam.


"E assim, terminamos nosso papo. A nós, do Portal Recordista, só resta agradecer ao ator Vitor Hugo, pelo tempo dedicado a essa inteligente conversa, e dizer que é com orgulho e prazer que deixamos aqui, para deleite e aprendizado do caro leitor que acompanha o ator assim como nós, uma aula gratuita de profissionalismo. E viva a arte dramática!"

Entrevista por :







 André Lima
Twitter : @andrem1lima

Colaboração :







 Rafael Oliveira
Twitter: @FaeelOliiveira